domingo, 4 de dezembro de 2011

Os verbos ver e vir - particularidades linguísticas

Circunstâncias de interlocução um tanto quanto corriqueiras remetem-nos ao uso de ambos os verbos, uma vez que, por falta de conhecimento acerca dos fatos linguísticos ou até mesmo por algum descuido, o emissor se depara proferindo discursos semelhantes a:

Se ela me ver por aqui, desconfiará da surpresa que estamos preparando.

A verdade é que estas formas verbais, assim como tantos outros verbos, perfazem-se de características específicas, das quais devemos ter conhecimento. Tal aspecto é demarcado pelo fato de que um verbo assume a forma do outro, em se tratando do futuro do subjuntivo. Assim sendo, de modo a verificarmos como se manifesta a ocorrência, constatemos a forma pela qual os referidos verbos são conjugados:

Futuro do subjuntivo

Mediante tais elucidações, há que se constatar que o discurso supracitado carece de uma reformulação, uma vez expressa da seguinte forma:

Se ela me vir por aqui, desconfiará da surpresa que estamos preparando.

O mesmo ocorre com os derivados, tanto de um verbo quanto de outro, como é o caso de antever, prever, rever e entrever – derivados de ver. Não deixando de mencionar as formas advir, convir, desavir-se, intervir, provir e sobrevir – derivadas de vir.

Observemos, pois, na prática, como resulta tal afirmativa:

Mediante os acontecimentos sociais, as autoridades intervieram de forma efetiva.

Entretanto, como no universo gramatical nos deparamos com regras, mas também com exceções, no que tange ao verbo “prover” podemos afirmar que ele é regular em alguns casos. Para tanto, observemos os tempos referentes ao modo indicativo:

Por Vânia Duarte
Especial para o Banco de Concursos

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dicas para interpretação de textos

Não só os alunos afirmam gratuitamente que a interpretação depende de cada um. Na realidade isto é para fugir a um problema que não é de difícil solução por meio de sofisma (=argumento aparentemente válido, mas, na realidade, não conclusivo, e que supõe má fé por parte de quem o apresenta).

Podemos, tranquilamente, ser bem-sucedidos numa interpretação de texto. Para isso, devemos observar o seguinte:

01. Ler todo o texto, procurando ter uma visão geral do assunto;
02. Se encontrar palavras desconhecidas, não interrompa a leitura, vá até o fim, ininterruptamente;
03. Ler, ler bem, ler profundamente, ou seja, ler o texto pelo menos umas três vezes;
04. Ler com perspicácia, sutileza, malícia nas entrelinhas;
05. Voltar ao texto tantas quantas vezes precisar;
06. Não permitir que prevaleçam suas idéias sobre as do autor;
07. Partir o texto em pedaços (parágrafos, partes) para melhor compreensão;
08. Centralizar cada questão ao pedaço (parágrafo, parte) do texto correspondente;
09. Verificar, com atenção e cuidado, o enunciado de cada questão;
10. Cuidado com os vocábulos: destoa (=diferente de ...), não, correta, incorreta, certa, errada, falsa, verdadeira, exceto, e outras; palavras que aparecem nas perguntas e que, às vezes, dificultam a entender o que se perguntou e o que se pediu;


 11. Quando duas alternativas lhe parecem corretas, procurar a mais exata ou a mais completa;
12. Quando o autor apenas sugerir idéia, procurar um fundamento de lógica objetiva;
13. Cuidado com as questões voltadas para dados superficiais;
14. Não se deve procurar a verdade exata dentro daquela resposta, mas a opção que melhor se enquadre no sentido do texto;
15. Às vezes a etimologia ou a semelhança das palavras denuncia a resposta;
16. Procure estabelecer quais foram as opiniões expostas pelo autor, definindo o tema e a mensagem;
17. O autor defende idéias e você deve percebê-las;
18. Os adjuntos adverbiais e os predicativos do sujeito são importantíssimos na interpretação do texto.
Ex.: Ele morreu de fome.
de fome: adjunto adverbial de causa, determina a causa na realização do fato (= morte de "ele").
Ex.: Ele morreu faminto.
faminto: predicativo do sujeito, é o estado em que "ele" se encontrava quando morreu.;
19. As orações coordenadas não têm oração principal, apenas as idéias estão coordenadas entre si;
20. Os adjetivos ligados a um substantivo vão dar a ele maior clareza de expressão, aumentando-lhe ou determinando-lhe o significado.

Nota: Diante do que foi dito, espero que você mude o modo de pensar, pois a interpretação não depende de cada um, mas, sim, do que está escrito. "O que está escrito, escrito está."

Copiado da página do  Dicas de Português, no facebook.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre erros de grafia - Sírio Possenti

Quase todos acham que cometer erros de grafia é o fim do mundo, um sinal de ignorância. Mas não são erros mais graves do que outros (os contábeis, principalmente). Além disso, em geral, esses erros são excelentes pistas para aprender sobre a língua e sobre o sistema de escrita.

Primeiro, o sistema de escrita: a chamada escrita alfabética não é nem fonética (um símbolo para cada som) nem fonológica (um símbolo para cada fonema). Em uma escrita fonética, “tio” teria tantas grafia quantas fossem as pronúncias ([t] ou [tch] no começo, [o] ou [u] no final, fora os sons intermediários). Uma escrita fonológica implicaria que escrevêssemos /caza/ (ou /kaza/) em vez de “casa” e /sinema/ em vez de “cinema”.

A escrita fonética de “final” seria [final] ou [finau] (ou [finaw]), conforme a pronúncia, mas a fonêmica seria sempre /final/ (como prova o “l” em “finalidade”).

E como escreveríamos “peixe”? Foneticamente, [pexe] ou [peixe] (ou [peyxe] – estou sem um bom símbolo para o som que escrevemos com “x” ou “ch”). Fonemicamente? Hoje, /peixe/. No futuro, quem sabe seja /pexe/.

Crianças aprendendo a escrever, adultos com pouca escolaridade ou prática e cronistas anteriores às leis ortográficas fazem, todos, o mesmo tipo de escolhas. Digamos, para simplificar, que cometem os mesmos tipos de “erros”. Empregam grafias diversas e juntam palavras que os mais experientes (ou os mais recentes) separam.

Analistas apressados podem chegar a diagnósticos severos (por exemplo, de dislexia) em relação a esses escreventes. Mas, de fato, trata-se apenas de: a) instabilidade do sistema ortográfico (casa / caza; borracha / borraxa); b) de grafias baseadas na pronúncia, que é variável (menino / mininu), em hipercorreção (se “peixe”, por que não “badeija”; se “menino”, porque não “menistro”; se “final”, porque não “degral”?). Para um aprendiz, convenhamos, não é nenhum desastre.

Um aluno que comete estes erros, evidentemente comete erros. Afinal, a grafia correta está definida em lei! Mas seus erros não são devidos à falta atenção ou a algum tipo de déficit cognitivo. Podem, ao contrário, ser resultado de hipóteses inteligentes, embora erradas, e de generalizações que não deveriam fazer, mas que, na fase de aprendizagem em que estão, são comuns e demonstram independência intelectual e inventividade.

Em um texto famoso de Mattoso Câmara sobre o assunto, uma análise chama particular atenção. O lingüista encontrou diversas grafias para a palavra “silvou” (no ditado de “a serpente silvou”). Elas são devidas especialmente à instabilidade do “l” em sua relação com “u” em final de sílaba e de “u” em sua relação com “o” em posição átona: silvou, silvol, siuvou, siovol etc. A pronúncia é sempre a mesma, é importante observar.

O caso mais interessante é silivou. Diz Mattoso Câmara que o acréscimo de “i” depois de “l” é uma manobra do aluno (de 12 anos !!!) para manter o “l”. Sua explicação: como já que o “l” flutua em final de sílaba (é pronunciado [l] ou [u]), mas é fixo no começo, ao colocar uma vogal depois dele, o aluno garante que o “l” esteja em começo de silaba e, assim, não se vocalize (não se “confunda” com u).

Que diferença poder ler uma análise de quem conhece o assunto!!

Texto originalmente publicado na revista Carta Capital

domingo, 20 de novembro de 2011

Sou


SOU from Andreia Vigo on Vimeo.

Documentário, 26min, Cor/P&B, Brasil/2010.

O documentário SOU é um registro histórico-poético sobre a identidade afro-gaúcha, tendo como base a vida e a obra do poeta gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009). Oliveira também é conhecido como o poeta da Consciência Negra, por ter sido um dos idealizadores da proposta de criação do 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra.

Direção: Andreia Vigo
Roteiro e Pesquisa: Lílian Solá Santiago e Andreia Vigo
Consultoria de Roteiro: Sátira Machado
Pesquisa Iconográfica: Fernanda Oliveira da Silva, Fernanda Calegaro e Sheila Zago
Produção Executiva: Andreia Vigo
Direção de Produção: Sheila Zago
Direção de Fotografia e Camera: Lívia Santos
Elétrica e Maquinaria: Felipe Avila Kuhn
Montagem e Finalização: Daniel Laimer
Logger: Henrique Maffei
Som Direto: Gabriela Bervian
Locução: Sirmar Antunes
Desenho de Som: André Sittoni
Trilha Sonora Pesquisada: Andreia Vigo, Lílian Solá Santiago e Casa dos Cantos
Percussão adicional: Josué de Oliveira
Produção: Bureau de Cinema e Artes Visuais

Filmado em Porto Alegre, Rosário do Sul e na Serra do Caverá. Inverno/2010.

O documentário SOU faz parte do projeto "RS Negro: educando para a diversidade", uma realização da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social do RS (SJDS), da Fundação de Educação e Cultura do Internacional (Feci), com financiamento da Companhia Estadual de Energia Elétrica do RS (CEEE), através da Lei da Solidariedade.

Este projeto consiste em um kit multimídia composto pela 2 ed. do livro “RS Negro: cartografias da produção do conhecimento”; Revista RS Negro; Poster book RS Negro; CD de aulas RS Negro; CD de áudios “Negro Grande” e o Vídeo-documentário “SOU”;

O kit do projeto será distribuido gratuitamente à escolas, bibliotecas e centros de pesquisa, numa ação alinhada à Lei 10.639, que inclui a "história e cultura afro-brasilera" no currículo oficial da rede nacional de ensino.

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA - VENDA PROIBIDA

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

20 de Novembro - dia da Consciência Negra - dia de Zumbi dos Palmares!

Jongo do Irmão Café - Nei Lopes

 

Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usados, moídos, pilados,
Vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!

Meu passado é africano
Teu passado também é.
Nossa cor é tão escura
Quanto chão de massapé.
Amargando igual mistura
De cachaça com ferné
Desde o tempo que ainda havia
Cadeirinha e landolé
Fomos nós que demos duro
Pro país ficar de pé!

Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usdos, moídos, pilados,
Vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!

Você, quente, queima a língua
Queima o corpo e queima o pé
Adoçado, tem delícias
De cachaça com ferné
Requentado, cria caso,
Faz zoeira e faz banzé
E também é de mesinha
De gurufa e candomblé
É por essas semelhanças
Que eu te chamo "irmão café

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Verbo vicário – definindo conceitos

Possivelmente tal adjetivação (vicário) pode causar-lhe certa estranheza, mas não se preocupe, saiba que não estamos tratando de algo incomum, mas sim de algo que faz parte de nossa rotina, embora, às vezes, imperceptível. Assim, o termo vicário, semelhantemente a muitas outras palavras de nossa língua, deriva-se do latim: vicarius, cujo sentido se atém a “fazer as vezes de”, “que substitui”.

Dessa forma, como há os elementos coesivos, os quais corroboram para a estética textual, evitando assim que o discurso não se torne repetitivo, há os verbos vicários, os quais substituem aqueles anteriormente mencionados, de modo a evitar, também, possíveis repetições. Nesse sentido, podemos dizer que o verbo em referência atua como sinônimo do qual faz as vezes, representado, normalmente, pelos verbos ser e fazer. Observemos, pois, alguns exemplos, de modo a tornar as elucidações ainda mais evidentes:


Ele não viaja mais como viajava antigamente.

Ele não viaja mais como fazia antigamente. Constatamos que o verbo “fazia” substitui o verbo “viajava”.


Íamos convidá-lo a assistir ao filme conosco, contudo não o convidamos.

Íamos convidá-lo a assistir ao filme conosco, contudo não o fizemos. Neste caso, temos que o verbo “fizemos”, considerado como vicário, substitui o verbo “convidamos”.


 A cerimônia se realizou, mas não se realizou como todos esperavam.

A cerimônia se realizou, mas não foi como todos esperavam. Notamos que o verbo “foi” (verbo ser) substitui o verbo “realizou”.

 
Se ela não conta a verdade, não conta porque tem medo.

Se ela não conta a verdade é porque tem medo. Aqui, explicitamente temos o verbo “é” (verbo ser) substituindo o verbo “conta” (contar).

Esses exemplos serviram somente de ilustração da ocorrência em pauta, mas, como dito anteriormente, vários outros compartilham da nossa comunicação cotidiana. É só prestarmos atenção que rapidamente os detectaremos.

domingo, 10 de abril de 2011

Evanildo Bechara: 'Sendo que' e uma crítica infundada

Rio - A sequência ‘sendo que’, em construções do tipo “Eram três os vizinhos, sendo que um deles acaba de mudar-se para Minas”, é tão natural ao nosso saber idiomático, que dificilmente imaginaríamos vê-la apontada como errada ou, no mínimo, como construção que deve ser evitada por desnecessária.

Realmente, a construção aparece repetida e condenada em consultórios gramaticais, dicionários de dúvidas de linguagem e manuais de redação, quando a sequência é usada como equivalente à conjunção aditiva ‘e’ ou à adversativa ‘mas’. A crítica chega a considerá-la tão pobre de força expressiva, que recomenda a sua supressão ou, se se considera imprescindível à ideia, que seja na oração substituída por um gerúndio ou particípio do verbo ou, ainda, por um pronome relativo ou conjunção subordinativa. Não falta quem a considere agramatical, isto é, contrária à estrutura do idioma.

Não conhecemos a fonte de onde se originou essa lição condenatória que não tem o respaldo de quem conhece profundamente a história da língua portuguesa, história que se reflete no uso de seus melhores escritores. No emprego de ‘sendo que’ não temos erro de língua, nem, tampouco, uma sintaxe agramatical. Por questão pessoal de estilo ou por possível necessidade de clareza do contexto, pode-se substituir ‘sendo que’ pelas alternativas propostas. Essa larga possibilidade de substitutos se deve ao fato de as chamadas orações reduzidas de infinitivo, de gerúndio e de particípio terem elasticidade semântica para cobrir as equivalências expressionais de que falamos.

A história da língua, entretanto, nos esclarece a origem de ‘sendo que’, na lição de um excelente representante da nossa gramaticografia, Augusto Epifânio da Silva Dias (1841-1916): “- Obs. 3ª. Um simples particípio absoluto substitui-se enfaticamente por uma oração de ‘que’ ligada como sujeito ao particípio ‘sendo’: Estava no mundo e sendo que o mundo foi feito por ele, não o conheceu o mundo (Vieira, II, 1901) (Sintaxe Histórica Portuguesa, § 316, b), págs. 242-243 da 2ª ed., Lisboa, 1933). Segundo a lição de Epifânio, a construção nasceu para dar ênfase à sintaxe com particípio, particípio que hoje se recomenda para substituir a fórmula considerada expressivamente fraca ‘sendo que’.

Os estudos históricos de nossa língua estão ainda muito aquém do desejado. Mas, pelo testemunho de Vieira, podemos pensar que a novidade da construção se deu entre os séculos XVI e XVII, e pela documentação a seguir continua viva nos nossos dias.

A ênfase conseguida em ‘sendo que’ é análoga à conseguida com a formula ‘é que’, tão nossa conhecida. Cabe ainda acrescentar que os críticos do ‘sendo que’ o consideram “inútil”, por dispensável. Mas, se não estamos em erro, a sequência continua imprimindo ao contexto a ênfase pela qual Epifânio explicou sua origem. Estará mesmo certo dizer que um exemplo como “Os autores concordam com essa teoria e os nacionais são ainda mais enfáticos” é mais clara e traz mais ênfase ao estilo do que “Os autores concordam com essa teoria, sendo que os nacionais são ainda mais enfáticos”? Para nós, é infundada a correção gramatical e estilística pretendida, conforme se vê no testemunho de nossos melhores escritores:

VIEIRA, Pe. Antônio. ‘Sermões’ (p. 185): “Andais buscando a honra com olhos de Lince; e sendo que para verdadeira honra não há mais que uma porta (que é a virtude) ninguém atina com a porta”.

ASSIS, Machado de. ‘Ressurreição’ (p. 92): “Lívia tinha alternativas de afabilidade e rispidez, ao passo que o irmão era de uma inalterável paz de espírito. Viana tinha cousas más e boas, sendo que as cousas boas eram justamente as que se opunham ao gênio especulativo da viúva".

ANDRADE, Mário de. ‘Namoros com a Medicina’ (p. 76): “Ainda a ferida oriunda de dentada de gente se cura entre nós com titica de galinha, sendo que além da cura, o remédio mágico derruba os dentes de quem mordeu".
Evanildo Bechara é professor da Uerj e da UFF e membro da ABL